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A Mina De Ouro
Contada por Aguinaldo Violeiro.

 

Lá ao pés da Serra da Piedade próximo à fazendinha dos meus pais tem um lugar chamado "descoberto" , é uma área toda coberta de eucalipto, a terra é bem vermelha e tem muito minério de ferro por toda a volta.

As vezes , a cada 07ou 08 anos, toda aquela cobertura de mata é removida para a indústria carvoeira, e nessa época se aflora um cemitério em ruínas. sobre o cemitério, nada demais, é apenas um cemitério em ruínas.

Mas quando campeávamos gado naquelas contendas, as vezes nos deparávamos dentro da mata escura de eucalipto citriodoro com um portão de ferro, dividido ao meio que denuncia a entrada de uma mina velha. Uma vez não me contive e perguntei ao meu querido pai de que se tratava, e pra minha surpresa, fiquei sabendo que naquele lugar, conta a lenda, há um tacho de ouro enterrado.

Me prontifiquei então a voltar lá e procura-la, não tenho nada contra o ouro, que problemas poderia ter. Montei novamente a cavalo no outro dia cedo, no romper da madrugada e campeei novamente, não o gado desgarrado de ribada da lida anterior mas sim a tal mina; engraçado porque nunca deixávamos nosso "pau de fogo"e um bom facão 3 listas (colins) com o qual cortávamos algum cipó ou galho que impedia a passagem montado e mesmo seguindo a trilha anterior por varias vezes, jamais deparei-me com a mina novamente.

Já somava 03 horas da tarde , e um céu de cobre a me cubrir quando retornei, os olhos fundos, brancos de fome, mas da mina, nem sinal. De novo a prosear com meu pai vim saber que desde o tempo dos escravos era costume dos senhores enterrar riquezas e matar ali o escravo para que o mesmo ficasse vigiando o "ouro do senhor" por toda eternidade.

Segundo meu pai para que se tenha acesso à essas riquezas é necessário que seja pagão, pois sendo batizado e movido pela ambição da riqueza nada se encontra, nada se vê. Outra forma seria quando involuntariamente, como ocorreu comigo na primeira vez, deparar com a mina, que se amarre aos seus portões um lenço azul. O que permitiria que se voltasse e não perdesse a trilha.

Mas não fiquei sabendo a função do lenço. O que sei mesmo é que da mina só a lembrança dos portões enferrujados, emperrados, cobertos de musgos e cheio de mato por todos os lados, com uma sombra de túnel que mete medo mesmo ao meio, como se fosse a noite mais tenebrosa de toda a nossa vida.

Senti um ligeiro calafrio, ao refugar do meu corcel, uma sensação quase tão estranha quanto aquela que senti quando sonhei com um ser que acreditava ser a morte. mas isso é uma outra estória.

2018  Casa dos Violeiros